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Eu venci! Perdi um filho e tive outras três lindas crianças

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Olá! Sou Débora, 31 anos, vendedora e tenho Diabetes Tipo I há 24 anos.

Na minha infância, minha mãe notou que tinha algo errado quando me viu perdendo muito peso, com umas manchas roxas abaixo dos olhos e urinando muito. Lembro-me perfeitamente do dia em que meus pais receberam o diagnóstico. Eles choraram muito e ficaram bem surpresos.Sem entender nada sobre a doença, se sentiram perdidos. Como eu era muito novinha, não entendi muito bem o que estava acontecendo. Mas logo me levaram rapidamente a um endócrino muito bom e  ele foi nos orientando pouco a pouco.

No começo foi bem difícil, eu era uma criança  que gostava muito de doces e por várias vezes comia escondido deles. A adaptação à  doença foi bem dolorosa.  Tive que ser internada por diversas vezes. Mas ao longo do tempo eles foram conhecendo a melhor forma de me orientar e ajudar.  Depois foi tudo muito tranquilo.  Eles me ajudavam muito com a dieta, com exercícios diários, tudo pra eu ter uma vida tranquila.Fiz tratamento por planos de saúde e pelo SUS para receber tudo que precisava insulina, seringas, fitas de glicose e tudo mais o que precisasse.

Comecei o tratamento usando as insulinas Regular e NPH, passei muitos anos com elas. Hoje em dia tomo Levemir  e Novorapid (caneta).

Ao longo desse tempo fui internada algumas vezes devido ao descontrole glicêmico.  Já tive diversas infecções urinárias por conta desse descontrole, as descompensações glicêmicas tendem a me dar infecções urinárias, sou bem suscetível a isso.

Cheguei à adolescência tive algumas crises rebeldes e assim segui com o diabetes.

Até que conheci um rapaz que se mostrou ser o homem da minha vida... Sabem como é né? A gente se apaixona, o rapaz mostra ter atributos que a gente julga importante em um homem, aparentemente entendeu bem o diabetes, me senti realizada com tudo aquilo que estava acontecendo. Aos 19 anos me casei, e depois de um ano de casados, decidimos ter um bebê, o planejamos e engravidei. Este planejamento que menciono, na época foi uma tentativa de ver se eu poderia ser mãe, pois sempre escutei que jamais o seria, então resolvi tentar, não era um planejamento como hoje sei ser o correto.

Após o casamento, comecei a ver que o homem que eu havia casado, não era quem eu imaginava... Não se preocupava com a gestação, com exames, consultas, nada referente à nossa saúde (minha e do bebe), talvez ele apenas quisesse concretizar o sonho da paternidade por alguma forma de machismo.

Era minha mãe que sempre estava ali comigo, me dando todo o apoio e acompanhando em consultas. Mesmo diante destas circunstâncias, foram dias alegres para mim, eu podia ser mãe e o meu filho me bastava. Porém por problemas de alcoolismo, as turbulências em nosso casamento passaram a influenciar ainda mais em nossas vidas, ele bebia muito, algumas vezes sumia, mostrava-se violento e passei a ter muitas hipers por estresse, além das comuns do período gestacional, o diabetes descompensou muito e passei a ter sucessivas infecções urinárias.

Dentro de mim algumas vezes o odiava por fazer de um momento tão importante para o casal, um inferno em minha vida. Será que ele não entendia que precisávamos de paz? Será que ele não teria o mínimo de responsabilidade?

Foi quando ao fazermos os exames com nove meses de gestação descobrimos que o coração do bebê havia parado de funcionar, meu bebê faleceu dentro da minha barriga aos nove meses de gestação (natimorto). Foram os piores dias da minha vida.Tive que fazer uma cesárea para tê-lo, Samuel nasceu com 3.250kg e 47 cm. Foi uma sensação horrível pegar meu filho morto nos braços, quase não o larguei e ficava imaginando o quanto aquilo poderia ter sido diferente. Inúmeras hiperglicemias, estresse, nervoso, infecções urinárias, medos e etc. etc. e tal...·. Precisei de um resguardo sem ao menos ter meu filho comigo! Quanta dor!
Na época eu não tinha nenhuma experiência  e não procurei um obstetra de alto risco como era preciso. Ninguém me orientou a fazer isso... Fui acompanhada como qualquer gestante seria.  Talvez se eu tivesse sido devidamente instruída; Talvez se ele tivesse sido pai e esposo; Talvez senão tivesse o diabetes... São tantos talvez... Foi naquele momento que aprendi sobre ser forte mesmo quando as condições não são propícias.

Passei o resguardo do Samuel sendo cuidada por meus pais... O pai dele pouco se importava... Nada no meu casamento mudava, mas dentro de mim ainda existia uma esperança de que meu esposo pudesse mudar, que ele me veria como a esposa que era, e, que juntos pudéssemos reconstruir nossa família.

Depois da perda do nosso primeiro filho, um ano e meio depois, nos planejamos e novamente engravidei, foi uma gestação planejada e  muito bem acompanhada. Precisei ficar internada para melhor controlar o diabetes, os médicos resolveram se precaver e se ater bem a esta gestação.

Assim como na primeira gestação, eu continuava sendo atendida pelo plano de saúde, mas agora pela equipe de alto risco. A rotina era exames, nutricionista, endócrino e obstetra, mudanças alimentares conforme idade gestacional, mudanças nas dosagens de insulina e quando as glicemias fugiam um pouco do esperado, era internada para melhor averiguar. Fui muito bem assistida, minha equipe dialogava entre si e mesmo diante as internações e consultas, conseguimos organizar tudo para receber o João Pedro em casa. Medo e insegurança a gente acaba tendo dentro de si, mesmo sendo assistida por uma equipe fabulosa, eu já havia perdido um bebê e não queria que nada de ruim ocorresse com meu segundo. Um misto de sentimentos me rondava, é inexplicável!

Infelizmente mesmo sendo bem acompanhada, meu casamento ia de mal a pior, ele não se importava conosco, me dava muito trabalho, bebendo exageradamente, sumindo pelo mundo a fora e com agressividade... Ai de mim se não fosse minha mãe em nossas vidas!

Pensem na minha agonia, ter perdido um filho, outro prestes a nascer, o diabetes, estar grávida, mas um monte de coisas acontecendo ao mesmo tempo e ter que lidar com um homem que agia como ele... A gente vai protelando uma possível separação, pensando que a pessoa vai mudar pelo menos quando o filho nascer, que vai rever conceitos... Eu me apoiava nos momentos de lucidez dele, que se mostrava uma boa pessoa, então vamos acreditando e nos enganando.

Até que com a cesárea agendada, João Pedro veio ao mundo no dia 15/01/08 com 36 semanas, 2.810kg e 48 cm, deixando meu mundo ainda mais alegre. João recebeu alta primeiro que eu, falei muito no parto, por isso tive muitas dores, então decidiram me manter mais um dia no hospital para avaliarem as dores.

De três meses a quatro meses após o parto do João Pedro, fiquei grávida do João Gabriel, não havíamos nos planejado de jeito nenhum, mas ficamos muito felizes por sermos pais novamente. Foi uma gravidez um pouco mais complicada se comparada a do João Pedro, além de agora eu já ter um filho e responsabilidades com ele, meus pais me ajudaram muito neste processo.

E o casamento? Nada de mudar!

Nem o filho em casa e o segundo prestes a vir mudaram a postura do pai, a cada dia ele bebia mais, se tornava ainda mais agressivo e sumia no mundo, ficava preocupada de como ele poderia estar, vendo nele uma pessoa cheia de potencial, mas que estava prostrada naquela situação, se afundando e nos levando junto.

Pensem nas vezes de eu grávida, com um bebê no colo, preocupada com ele... Mas meus pais estavam sempre lá me apoiando, sem julgamentos...

Às vezes a gente pensa que a mulher não se separa de um cara assim, pois gosta da situação... Mas a pergunta é: Quem gosta de sofrer? Ninguém! Mas as falas do companheiro, o que ainda sentimos por ele, que se mistura também com dó, vai nos prendendo, junta com a ideia de família perfeita é que se tem pai, mãe e filhos... Daí pronto... O tempo simplesmente vai passando.

Conforme a gestação do João Gabriel foi avançando, minha glicemia descompensou muito, precisei ser internada para melhor controlar o diabetes, estava ficando muito cansada e meu físico já estava sentindo muito pela gestação. Contando com um possível parto prematuro os médicos me deram injeções de corticoide a fim de amadurecer os pulmões do Gabriel para o caso de um parto de urgência, porém mesmo com as injeções, os pulmões dele não amadureceram a tempo, e, assim com 34 semanas, ele nasceu com 2.950kg e 47 cm, parto cesárea e precisou ir para a UTI Neonatal ficando lá por 20 dias.
João Gabriel foi amamentado normalmente, sem problemas.

Em momentos de lucidez o pai dos meninos mostrava-se uma pessoa mais sociável, o que o fazia esporadicamente pegar os filhos, mostrar alguma afeição por nós, mas quem nos cuidou de verdade foram meus pais e meus empregos, sempre fui batalhadora, nunca me prostrei, mesmo diante das adversidades e complicações gestacionais, eu trabalhava como vendedora a fim de garantir algo aos meus filhos.

Quando João Pedro completou três anos e João Gabriel fez dois anos conversei com meus pais, precisava de apoio para sair de casa, meu casamento estava insustentável, eu havia tentado, mas remava contra a maré, precisava sair daquela situação por nossas vidas. Meus pais me a apoiaram e fomos morar com eles... Nossas vidas mudaram radicalmente, em paz, sem gritos, preocupações, bebidas ou agressões, ele raramente aparecia para saber dos filhos e eu nem me importava com aquilo, só queria paz. Nunca falei mal do pai para eles, acho que não precisam disso, inconscientemente e até presencialmente já sabiam e sofreram muito.

Minha vida continuava, me tratando, aplicando insulina, medindo e etc. Além de agora ter dois filhos e responsabilidades com eles, mas tendo pais maravilhosos que me ajudavam muito.

Aos 24 anos quando trabalhava em um shopping conheci meu atual marido, ele me convidou para lancharmos e foi lá o nosso primeiro encontro. Lembrou-me como hoje, que logo de cara ele soube do diabetes, pois ao pedir um refrigerante normal para mim, o neguei dizendo-lhe ser diabética, ele ficou curioso querendo saber um pouco mais sobre a doença, lhe expliquei, e, assim progressivamente ao longo do nosso relacionamento ele foi se informando e aprendendo sobre o diabetes.

Conhecendo- o mais de perto fui me apaixonando e tentando ver se ele era tudo o que parecia ser, afinal, eu já havia me enganado uma vez e não queria passar por tudo aquilo de novo, ainda mais agora com dois filhos.

Mas meu esposo foi se mostrando um ser humano incrível, que tratava meus filhos com amor e respeito, isso eles não tiveram do próprio pai. Decidimos nos casar, a relação entre ele e os meninos é incrível, eles passaram a chamá-lo de pai, de forma natural, sem ninguém pedir ou estimular. O pai de sangue esporadicamente os procura, quando isso ocorre, eles o evita, por mais que eu converse, eles se negam a falar com o pai, não forço, quando acharem que é o momento o farão sem pressão.


Finalmente eu me sentia em paz, em um relacionamento de respeito, amor, carinho, afeição, compreensão e interação com a minha doença e mais ainda que deu aos meus filhos tudo o que mais queriam, um pai presente.


 Pelo tipo de trabalho do meu marido, passamos a morar em diversos locais diferentes, conforme escala do serviço vamos para estados e cidades diferentes.  Isso dificulta um pouco no meu relacionamento com equipe médica, não consigo criar vínculos com meus médicos. Atualmente me trato no Hospital Naval de Natal, pois meu esposo é militar e fomos transferidos para esta cidade.  É  sempre assim, equipes novas em cada lugar que vou. Tem cidades que tenho todo um acompanhamento em Centro de Diabetes, e recebo tudo que preciso, mas em outras cidades isso não ocorre. Os trâmites legais para que eu possa receber meus insumos se diferem entre um local e outro, uns logo liberam, outros não, tendo eu que comprar tudo o que necessito para me tratar, atualmente, por exemplo, não recebo nada nem pelo estado e nem pela prefeitura.

Os anos se seguiram, meu esposo indo comigo a cada consulta, exame, se interando sobre o diabetes, minha saúde e nos proporcionando uma vida maravilhosa.

Achamos que era o momento de termos um filho nosso, mas passei um bom tempo tentando e nada de engravidar. Foi então que o famoso POSITIVO veio, ficamos muito felizes, nesta época residíamos no Rio de Janeiro e fiz todo o pré-natal no Hospital Naval do Rio de Janeiro, minha sogra foi um anjo em minha vida, me ajudou muito neste período. Eu era atendida pelo meu medico no SUS e no plano particular, assim ele teria mais tempo na agenda para nos ver. Precisei ser internada algumas vezes, a glicemia descompensou muito, era assídua em meu tratamento, porém até mesmo no hospital era notória a dificuldade de conseguirem manter as glicemias boas. Foi então que em uma manhã no hospital, levantei com a glicemia HI, acordei para beber água, tive um mal estar e quase desmaiei, me colocaram em uma cadeira de rodas, chamaram a junta médica e decidiram fazer uma cesárea de emergência. Há mais de uma semana eu vinha apresentando sucessivas hiperglicemias, não sabíamos como que aquilo poderia refletir na bebê.

No dia 07/03/15, Melissa veio ao mundo, sem complicações, logo veio para o quarto comigo. Nasceu com 34 semanas, 47 cms e  1.800kg. Para que alcançasse o peso necessário para poder receber alta, ficamos uns dias a mais no hospital, onde ela precisou tomar fórmula para ganhar peso. Oito anos após minha terceira gestação Melissa veio ao mundo.



A amamentei sem dificuldades, claro que neste período as glicemias variaram, mas o endócrino ia mexendo nas doses e assim fizemos deste momento o mais mágico de nossas vidas.

Nossa família está completa com três filhos. Nos sentimos inteiros e satisfeitos assim como nossa família é. Desta forma, meu marido fará vasectomia.

A vida não tem sido fácil, ser mãe, esposa,dona de casa ,trabalhar e ter diabetes dá um trabalhão. Mas a gente vai adaptando aqui, ali, mexendo lá,cá e vai se virando, tudo vai se encaixando quando há amor, mesmo que as coisas não saiam como de fato queiramos, elas encaixam, então não vale o estresse de querer perfeição.


Espero de verdade pode ajuda-las com minha história, ela não é perfeita, tem trechos de muita dor, mas a dor nos ensina, nos ensina sobre a vida e sobre nós mesmos.

Todo o dia tenho orgulho da pessoa que vejo no espelho e repito a ela mesma: “Você é forte, você pode e se cuide! Você tem uma família linda que precisa de você bem aqui.”

E você? O que vê no espelho? O que diria a esta pessoa aí?

GRATIDÃO me define!


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