.

20 anos de DM1: Infelizmente uma perda, dois filhos e muita resiliência

|
Olá! Me chamo Jheinyfer, tenho 29 anos e sou empresária.

Descobri o Diabetes Tipo I aos nove anos de idade. Após a separação dos meus pais,percebemos que o banheiro de casa vivia cheio de formigas, passei a ter corrimento, o que não era normal para a minha idade, minha mãe relatou isso aos médicos e fomos fazer exames, ao realizarmos o exames de sangue,a glicemia em jejum deu 432 mg/DL 😮. E assim com todos os exames em mãos fui diagnosticada com Diabetes Tipo I.

Desde então, minha mãe era quem cuidava de mim. Os anos passaram e a adolescência chegou junto com ela me veio à rebeldia, deixei de usar a insulina corretamente (NPH e Regular), bebia e comida tudo o que podia e não podia, fui internada pela primeira vez com cetoacidose diabética e lá fiquei 12 dias.

Quando completei 17 anos fui morar com o meu namorado (hoje meu marido e pai dos meus filhos). Ele sempre se preocupou e me ajudou a controlar a doença.

Aos 19 anos descobri que estava grávida pela primeira vez. Foi um susto tremendo!Eu não queria ser mãe, não naquele momento... No primeiro ecocardiograma fetal, o médico me alertou que o coração do bebê estava com uma má formação, eu deveria repetir o exame no dia seguinte e passar pelo obstetra.

No dia seguinte, refiz o exame e o bebê já estava em óbito, eu tinha 19 semanas de gestação. Foi aí que me caiu a ficha: “Quero ser mãe é agora o que faço? Como faço?”. Ouvia muita gente dando palpites sobre ter diabetes e não ser mãe, que tudo era muito complicado e acabei desenvolvendo depressão diante das circunstâncias.

A médica que me acompanhava na época, me apresentou as insulinas Levemir e Novorapid, além da Contagem de Carboidratos, dizendo-me que seriam grandes aliadas em meu tratamento, iniciei o uso, e um ano depois fiquei grávida novamente.

A felicidade não cabia em mim, me cuidei ao máximo que podia, fiz o acompanhamento pelo Hospital de Clínicas de Curitiba, minha cidade. Excelentes profissionais e bem rigorosos. Tinha consulta com endocrinologista e obstetra toda segunda-feira, fazíamos o perfil glicêmico toda quinta e eu passava o dia todo no hospital, mas estava sempre muito feliz.

Engordei muito no total 33 kg, fiquei redonda. Antes da gestação minha glicada estava sempre entre 10% a 11%, durante a gestação ficou entre 7% a 8%%, os ecocardiogramas fetais e ultrassons iam bem e tudo ia seguindo. Até que em uma das consultas, após o eco fetal (segunda-feira), a médica que nos atendeu disse-me que marcaria uma consulta extra na quarta-feira. Aquilo me assustou, mas ela não falou nada e também não tive acesso ao exame, já que no hospital nem mesmo podíamos olhar a tela.

Na quarta-feira, dia da consulta extra a médica me disse:

-Seu bebê está pequeno demais para a idade gestacional, ainda mais você sendo DM1...

Me desesperei, estava com 33 semanas e quatro dias, e ele estava com 1.500kgs. Cheguei em casa em prantos. De repente senti que minhas calças estavam molhadas, achei que tivesse feito xixi, me lavei troquei de roupa e pronto. A noite estava molhada de novo, então fomos para o hospital. Chegando lá fiz um ultrassom, e o médico viu que eu estava com bolsa rota, fiquei internada e em dois dias minha bolsa já estava seca. Tomei injeções de corticoide com o objetivo de amadurecer os pulmões do bebê, minhas glicemias se elevaram muito por conta delas.

O fim de semana já havia passado e o natal também, eu no hospital, nervosa e sem saber ao certo o que fariam conosco. No horário da visita, minha mãe foi me visitar, ao me ver não segurou o espanto e disse:

-Cadê sua barriga? Ela já nasceu?

E saiu do quarto fazendo aqueles escândalos típicos de mãe, rsrrs.

Santo escândalo! Ele na verdade nos ajudou muito!

Veio uma junta médica nos avaliar e para o desespero de todos o coração do meu pequeno estava parando. Eu tinha acabado de tomar café da manhã, mesmo assim correram comigo pro Centro Cirúrgico para fazermos uma cesárea. Um pediatra com incubadora aguardava o bebê dentro da sala, e, me dizia que tudo daria certo, se algo acontecesse ele me avisaria imediatamente (eu sei que ele não falaria nada).
 
Matheus na incubadora

Comecei a passar mal e não vi mais nada, quando recuperei consciência, os médicos estavam em cima de mim tentando me manter consciente, os escutava pedindo glicose, minha glicemia estava em 11 mg/DL. Eles já tinham começado a cortar a minha barriga, disseram que pelo tamanho meu bebê não iria chorar, mas que iria ficar bem.

E foi aí que ele veio ao mundo, chorou e muito! Parecia um ratinho de tão pequeno, 1280kgs e 37 cm. Ficou na UTI Neonatal por 32 dias para ganhar peso. Quinze dias após a alta médica precisou retornar ao hospital, pois teve estenose hipertrófica de piloto (um músculo do estômago era maior do que o normal e o fazia vomitar em excesso e em jatos). Matheus Henrique (meu filho) fez três cirurgias (estomago, intestino e colocou um cateter), necessitou de mais um tempo na UTI. Atualmente é acompanhado por três especialistas (gastro, pneumo e endocrinologia por conta do baixo peso, ele tem sete anos e pesa apenas 16 kgs). É um dos amores da minha vida!! O amamentei por três meses, eu tirava o leite e ele tomava via sonda e por uma semana foi amamentado nos seios, mas pelo baixo peso e cirurgia no estômago, ele necessitou de um leite especial.

Quando Matheus tinha três anos, eu tive um coma hipoglicêmico, um dia apenas, é o resultado disto? Estava grávida de quatro meses (não sabia desta gravidez), esta foi uma gestação mais complicada, era uma semana em casa e uma semana no hospital. Minha glicemia estava igual uma montanha russa, perdi a consciência pelo menos umas seis vezes nesta gestação, e na última internação, a médica achou melhor ficarmos internadas e sairmos apenas após o parto. Fiquei aliviada, pois me senti mais segura com isso.

Minha bebê não foi como o irmão, muito pelo contrário, tinha o percentil abdominal aumentado, estava grande demais, nasceu de 35 semanas 3380kgs e 45 cm, fiz a laqueadura junto com o parto, por recomendação médica. Depois do parto da minha filha, mudamos minha insulina basal para o Glargina, para me ajudar nos controles e um tempo depois passei a usar o Libre. A amamentei por três meses, mas devido as constantes hipoglicemias e pouco leite, optamos pela fórmula.
 
Carolina no hospital

Hoje tenho inúmeras responsabilidades, sou esposa, mãe do Matheus Henrique (7) e da Carolina (3), profissional, dentre várias outras coisas, noto que a vida da mulher com diabetes, é um pouco mais complexa do que das mulheres que não tem diabetes, mas meus pequenos me ajudam muito, eles já sabem quais as cores de insulina basal e ultrarrápida (as canetas) e sempre me ajudam a lembrar de medir a glicemia.

Meus tesouros

Como tenho a empresa e ainda Carolina não vai para a creche, fica bem corrido o meu dia a dia, às vezes acabo deixando de lado as medições e contagem de carboidratos em algumas refeições (quem nunca) rsrsr, de tão no automático que as coisas ficam.

Acho que o fato de sermos mulheres já nos indica que podemos sim, sermos mães, ser diabética não nos impede de nada absolutamente, apenas nos exige um pouco mais de atenção a algumas coisas, coisas estas que nos garante vida e qualidade dela.


Sinto-me realizada como mulher, como mãe e como DM I, segundo meus funcionários sou uma patroa doce.
Carolina e Matheus

Nenhum comentário:

Postar um comentário