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Um amor para a vida...

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Bom dia Kath!!!

Tudo bem?!

Minha história é um pouco diferente das que leio em seu blog, em todo caso quero muito partilhá-la com vocês. Há nela muito amor, força de vontade e uma forma peculiar para uma DM1 viver a maternidade, e isso não nos torna menos mãe.

Aos 18 anos recebi o diagnóstico de Diabetes Tipo I com aqueles sintomas clássicos, ou seja,  poluiria, polifagia, polidpsia e perda de peso (emagreci 10 quilos em um mês). Fui internada no CTI  com cetoacidose diabética.

Receber o diagnóstico não foi fácil, a gente não entende no início, e acho que nem a minha família entendeu,ficaram assustados com a internação no CTI. Iniciei o tratamento ainda no hospital com insulina e dieta restrita. Já usei todas as insulinas, atualmente uso Tougeo e Apidra com caneta de aplicação.

Passei por todas as fases, no início achei legal, eu era a diferente, todo mundo perguntava, as pessoas queriam ajudar, me vigiavam comer e eu achava isso legal, era o centro das atenções. Posteriormente veio a fase da negação, comia doce escondido, ficava dias sem aplicar insulina, aquela loucura toda.

Chegou o momento do vestibular, sempre quis ser médica, desde criança, pelo valor da mensalidade sabia que minha família não teria como arcar com a mensalidade, tentei em universidades públicas outros cursos na área da saúde, até passei, mas nada me encantava, queria mesmo era ser médica. Até que fiz o vestibular em uma universidade privada, passei e consegui o FIES (Fundo de Financiamento Estudantil), o que me possibilitou me tornar médica.

Durante a faculdade, fui negligente com meu tratamento. É antagônico dizer, pois por estar na área da saúde, e ter meios, algo estranho me sobreveio. Foi um misto de sensações e acontecimentos. Meus pais se separaram, nas aulas eu tinha contato com as inúmeras sequelas do diabetes e isso me deixava pra baixo, pensando se aquilo ocorreria comigo mesmo... Enfim, eu fiquei por anos anestesiada, impotente e sem ação quando o assunto era tratar do diabetes. Foi uma impotência que não sei explicar. Muitos podem me julgar, mas não foram anos fáceis. Lidar com a pressão da faculdade, pais se separando família se reorganizando, o diabetes e ter que diariamente lidar com suas patologias reais no período da faculdade, em mim causou um efeito reverso, paralisador.

Nos últimos meses de faculdade, fui para uma cidade do interior estagiar, lá conheci meu marido, começamos a namorar e dois anos depois nos casamos. Me tornei Médica (clínica geral) e trabalho em um Pronto- Atendimento.

A relação dele com o DM foi sempre tranquila, isso não nos foi um empecilho, ele tinha poucas informações sobre o diabetes, mas sempre me ajudou no que pôde. Contudo, até hoje se assusta com as hipos rs.

Negligenciei o tratamento por muito tempo, e uma hora as complicações vêm, embora a gente ache que nunca acontecerá conosco. As sequelas do mal controle glicêmico em mim são: retinopatia (já fiz 3 lasers porém está controlada agora, enxergo muito bem); neuropatia (muitas dores nas pernas); nefropatia (renal crônica em diálise, na fila para transplante duplo rim-pâncreas) e mastopatia diabética (alteração nas mamas com nódulos devido ao mal controle glicêmico).

Quando passei a ter uma consciência real da necessidade do cuidado, e passei a me cuidar, já tinha sequelas.

Como na maioria dos casais, quisemos ter filhos, porém com as complicações do diabetes a minha gestação foi contra-indicada pelos médicos, por causa do risco de piorar todo meu quadro.

Receber uma notícia destas, claro, ninguém quer, mas havia dentro de nós um sonho, queríamos realizá-lo, porém não com impulsividade, de forma irresponsável, eu já havia sido negligente demais por anos a fio, agora minha visão era outra . Corria sérios riscos se gestasse, poderia trazer problemas também ao bebê. Nós dois correríamos sérios riscos. Um sonho neste caso, não poderia falar mais alto do que a razão. Nessa hora como médica, resolvi aceitar os conselhos médicos e não engravidar.

Por um tempo havia desistido da maternidade, mas comecei a ler sobre a possibilidade de fazer útero de substituição. Foi então minha irmã se propôs a ser minha barriga emprestada, surgindo para nós, uma luz no fim do túnel.

Começamos a fazer os exames, e graças a Deus tudo estava certo.  Minha irmã já era mãe de 2 meninas lindas, e decidiu gerar os sobrinhos, gesto mais lindo que alguém pode fazer, doação sem limites.

Durante a inseminação, foram inseminados 2 embriões. Sabíamos que poderíamos ter gêmeos, mas esta era uma possibilidade e não um veredicto. Foi então que no primeiro ultrassom já vimos 2 bolsas gestacionais. Foi muita alegria! Dois filhos de uma vez só! E ainda um casal! Era Deus cuidando com todo carinho mais uma vez.



A gravidez foi um período de muita alegria e também de muitos questionamentos. Estava realmente muito feliz, vivendo a melhor fase da minha vida, era uma alegria indescritível, um amor que não cabia no peito.... Feliz de estar realizando um sonho, de ter uma irmã como a minha que me acompanhou, e me permitiu esta concretização... Mas confesso que por vezes me culpei pois não cuidei o suficiente do diabetes para poder me tornar ser mãe... Por outro lado, me sentia muito agraciada por Deus, por Ele ter me concedido a graça de ser mãe mesmo por outro meio, e por ter a minha irmã como parte deste sonho.




O pré-natal foi super tranquilo, minha irmã Renata, graças a Deus tem uma saude de ferro e trabalhou até a semana do parto.Ela mora em outra cidade,para participarmos dos exames e novidades,sempre nos deslocamos até sua cidade, e foi lá que os bebês nasceram.

A cesárea foi marcada para o dia 16/06/2016, quando Renata estava com 38 semanas. Fomos todos juntos para o hospital no dia do parto. Foi emocionante ouvir os chorinhos deles, e ver ali concretizado o ato de amor da minha irmã para conosco. Era uma irmã num ato incondicional e duas novas vidas ao mundo, vidas que amei antes mesmo as conhece-las. Eu e meu esposo ficamos extasiados com tamanho sentimento. Foi uma atmosfera sensacional.

Lucas (São Lucas era médico e como sou médica quis fazer uma homenagem), nasceu com 2.930g e 51cm. Lorena (nome forte que me remete a alguém que sabe o que quer), nasceu com 2.860g e 49cm. Nasceram lindos e saudáveis, tanto que 48h depois do parto já haviam recebido alta.

Há quase 2 anos recebemos a graça de termos nos tornado PAIS. Cada dia uma novidade, uma alegria, uma descoberta, um amor imensurável. Não os amamentei, desde que vieram para casa tomaram fórmula, crescendo alegres e sadios.



Cada um com sua personalidade, características físicas paternas e maternas. Desejados desde sempre,  gerados num ventre regado de amor, e hoje aqui, fruto do nosso amor.

Sempre mantemos contato com a Renata, sou apaixonada pelas filhas dela. Ela é a madrinha da Lorena, sempre que conseguimos nos encontramos.



Agora mais que nunca, tenho a consciência que preciso me cuidar, tenho 2 crianças e um marido que dependem de mim. O que aconteceu, já aconteceu, decidi começar do zero e fazer diferente. Resolvi me dar um recomeço.

Meu controle glicêmico varia muito, ainda mais depois da insuficiência renal e tenho muita dificuldade para me alimentar, as vezes tenho hipoglicemia por conta disso, principalmente noturna.

A vida com diabetes não é fácil, mas quando você aceita e decide lutar em seu favor, ao invés de tentar lutar contra a doença, as coisas vão se ajeitando. Depois que meus filhos nasceram, minha vida mudou de forma indescritível. Trabalho dando plantões em pronto-socorro, em casa cuido deles, estou em processo de exames para um transplante duplo rim-pâncreas que será uma melhoria na minha qualidade de vida para cuidar dos meus pequenos. Mesmo diante desta correria ,amo ser MÃE.

Não espere chegar no ponto que cheguei para poder se cuidar. Cuide-se agora! Tome a decisão de se gostar agora! Ser mãe é a melhor coisa que pode acontecer na vida de uma mulher.Graças a Deus tive minha irmã que me proporcionou essa bênção, mas eu poderia não ter realizado esse sonho por irresponsabilidade minha, porque deixei de cuidar. A gente vive ilusoriamente atrás de um depois, que pode não chegar, ou vir comprometido, como foi no meu caso.

Se cuide para ser mãe, se o desejar. Senão, se cuide por você, por quem te ama. Sequelas trazem sofrimentos a todos, e não só a você. Se cuide para ter saúde para estar com seus filhos, isso não é só prova de amor, mas também prova de responsabilidade e respeito com eles, afinal, os mesmos não pedem para vir mundo, e se veem, precisamos ser maduros o suficiente para mudarmos.

Sou imensamente grata a Deus por estar me dando todas as condições de cuidados atuais com a minha saúde, mas principalmente por ter colocado a Renata em nosso caminho, nos dando a oportunidade de sermos PAIS.

É sim possível ser mãe, esposa, médica e diabética (com todas as complicações) e ser muito feliz.

Eu vejo flores por onde ando. Procuro não olhar para trás, pois vejo que isso não adianta mais. Deixei o passado lá, e hoje só lembro dele quando quero alertar pessoas.

Não desista dos seus sonhos, mas pincipalmente não se esqueça de você!!!

Por isso ressalto, que é possível sim, ser mãe com complicações do mal controle glicêmico, desde que vc tenha uma opção como eu tive. Não recomendo não seguir as orientações médicas, e engravidar sabendo dos riscos. A gente sempre se encoraja por ver a história feliz dos outros meus com complicações. Mas quem nos garante que teremos a mesma “sorte”? Mais do que pensar em mim, hoje penso em meus filhos.

Sigo agradecendo a Deus por todas as graças. Minha mãe será a doadora de um rim para mim, na verdade eu tenho a melhor família deste mundo. Meus dois irmãos também se propuseram a me doar o rim, porém pelos exames, minha mãe seria a melhor doadora no momento. Tenho ou não uma família especial? Sempre se dispondo ao meu favor.



Tenho também o melhor marido, alegre, otimista e sempre enfrentando as tempestades ao meu lado. 
GRATIDÃO DEUS,POR TUDO!

“ Sonho que se sonha só... e só um sonho que se sonha só... mas sonho que se sonha junto e realidade...”
FELIZ DIA DAS MÃES A TODAS.
OBRIGADA RENATA POR HOJE EU SER MÃE.

Um comentário:

  1. Lindo seu depoimento, cheio de amor, cheio de sinceridade. Ame-se muito mesmo, pois esses menininhos estarão ligados a você por toda a vida.

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